Make your own free website on Tripod.com

VIAGENS VIRTUAIS

Redes Telemáticas na Aprendizagem

do Português Língua Estrangeira

Maria João Serra

mjserra@univ-ab.pt

PORTUGAL

 

 

RESUMO:

O trabalho que irá ser apresentado tem como base um estudo exploratório realizado com o objectivo de demonstrar as potencialidades pedagógicas do uso de meios telemáticos, no processo de aprendizagem do Português Língua Estrangeira, com públicos adultos, inseridos em contextos socioculturais diferenciados.

Pretendia-se, à partida, criar, de uma forma estruturada e fundamentada, uma rede que interligasse departamentos/leitorados de Português Língua Estrangeira, em universidades, dentro de um mesmo país, ou entre países, de modo a facilitar trocas de ideias e de materiais entre professores/leitores, professores/leitores e alunos e entre alunos, num contexto aberto de aprendizagem da Língua e da Cultura portuguesas. A intenção era, em resumo, criar uma dinâmica que permitisse melhorar, em instituições de Ensino Superior, no estrangeiro, o processo de ensino/aprendizagem nestas duas áreas.

Na maior parte dos casos, os intervenientes no processo (professores e aprendentes) nem sempre dispõem de materiais variados e actualizados. O computador pode ajudar a resolver este problema, encurtando distâncias, facilitando o acesso a documentos e permitindo todo o tipo de trocas. É importante, no entanto, definir que dinâmicas devem ser criadas e que benefícios este ambiente pode trazer para o processo de aprendizagem da Língua e da Cultura.

O estudo exploratório inicial funcionou como um contributo para o projecto, "Viagens Virtuais", que está a ser implementado, pela Universidade Aberta, com uma base semelhante mas prevendo públicos, áreas, níveis e contextos de aprendizagem mais alargados. Este projecto inclui, para além de toda a estruturação e disponibilização de materiais de aprendizagem (scripto, audio, video e multimedia), o apoio directo e individualizado de tutores desta Universidade.

A língua portuguesa é, hoje em dia, usada por cerca de 210 milhões de pessoas e muitos são os que continuam a querer aprendê-la. As motivações destas pessoas têm que ver, quer com ligações pessoais a Portugal ou a países de língua oficial portuguesa, quer com necessidades profissionais, quer apenas com o desejo de estudar mais uma língua e a(s) cultura(s) com ela relacionada(s). Para dar resposta a estas situações, o Governo Português disponibiliza professores para o ensino da língua e da cultura portuguesas, para os níveis básico e secundário, através do Ministério da Educação, e leitores em universidades, nos cinco continentes, através do Instituto Camões que depende, por sua vez, do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Dado que o trabalho que aqui irá ser relatado foi desenvolvido apenas com alunos universitários, centrar-se-á, exclusivamente, neste nível de ensino. No mapa que se segue é possível visualizar, a negro, a rede de leitorados de Português existente em todo o mundo, nos países que a seguir referimos. Os dados são apresentados pelo Instituto Camões (http://www.instituto-camoes.pt) e relativos ao ano lectivo de 1998/99.

REDE DE LEITORADOS

Esta rede inclui leitorados, nos seguintes países:

África do Sul, Alemanha, Angola, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Bulgária, Cabo Verde, Canadá, China, Croácia, Eslováquia, Espanha, EUA, Finlândia, França, Gabão, Guiné-Bissau, Holanda, Hungria, Índia, Irlanda, Israel, Itália, Malásia, Marrocos, Moçambique, Namíbia, Polónia, Reino Unido, República Checa, Roménia, S. Tomé e Príncipe, Senegal, Suécia, Suíça, Venezuela e Zimbabwe.

Para além dos leitorados, há, em muitas universidades estrangeiras, Cátedras e Centros de Língua e Cultura Portuguesa.

Foi possível constatar que, em muitas destas situações, não existem meios que permitam um contacto fácil entre grupos e que há dificuldade de acesso a materiais didácticos, variados e actualizados. Assim, a utilização pedagógica das Tecnologias de Informação, bem como todo um processo de troca, que seria desejável a todos os níveis, só acontece pontualmente, quase nunca de forma estruturada.

Na Universidade Aberta, em Portugal, designadamente no Centro de Estudos de Ensino a Distância - CENTED, um departamento de investigação ligada fundamentalmente ao desenvolvimento de projectos nacionais e internacionais, o trabalho tem sido orientado no sentido da aprendizagem do Português, sobretudo como língua segunda e como língua estrangeira, bem como da Cultura portuguesa. Considerou-se, por isso, a possibilidade de ensaiar um sistema que permitisse contribuir para que alunos e professores pudessem eliminar distâncias e rentabilizar meios e materiais, pela interligação de departamentos / leitorados de Português, no estrangeiro, dentro de um mesmo país ou entre países, de modo a facilitar trocas de materiais e de opiniões entre leitores e entre grupos de alunos, num contexto de aprendizagem da Língua e da Cultura portuguesas.

Enquanto docente, com funções de investigação no Centro e, também, em termos pessoais, no âmbito do Mestrado em Comunicação Educacional Multimedia, tive oportunidade de estruturar e realizar um primeiro trabalho na área das Telecomunicações e, posteriormente, complementá-lo, sob a forma de estudo exploratório, como dissertação de Mestrado.

Assim, começarei por dar conhecimento da primeira situação que acabei de referir, o trabalho «Interactividade e Telecomunicações», correspondente à criação da estrutura e a um pequeno ensaio e só depois referirei o estudo exploratório realizado posteriormente, «Redes Telemáticas na Aprendizagem do Português Língua Estrangeira», e concluir com informação referente ao projecto «Viagens Virtuais», que surge na sequência deste estudo e que se encontra, actualmente, em fase de implementação.

Comecemos, portanto, pela estruturação do projecto.

Pretendia-se, à partida e por fases:

Em resumo, a intenção foi começar por criar uma dinâmica que permitisse melhorar o processo de ensino/aprendizagem do Português, Língua Estrangeira (P.L.E.) ou Português Língua Segunda.

Na primeira fase, que decorreu no segundo semestre de 1997, começou por se fazer:

As conclusões, retiradas a partir do tratamento dos dados, confirmaram os pressupostos iniciais e, portanto, o interesse de todos os inquiridos pela implementação de um projecto deste tipo. Afinal, ia-se ao encontro de uma preocupação revelada pelos leitores / professores de Português língua estrangeira, nas universidades, quer em Portugal, quer no estrangeiro, relativamente à escassez de meios materiais e ao isolamento em que, em geral, trabalham. Constatou-se que, em muitos casos, existem equipamentos informáticos mas estes são utilizados apenas para fins administrativos, não sendo possível o seu uso para fins pedagógicos, em situações em que seria desejável fazê-lo.

Com a segunda fase do projecto previa-se:

Embora se soubesse, desde o primeiro momento, que, do plano apresentado, apenas uma pequena parte seria executável no tempo de que se dispunha, pensou-se, no entanto, poder ainda esboçar, informalmente, uma ou outra situação de intercomunicação, apenas com alguns dos leitores que haviam respondido aos questionários. Contudo, alguns factores o impediram:

Assim, o esquema que a seguir se apresenta, corresponde à situação a que se pretendia chegar, ao objectivo a atingir.

Foi aqui, exactamente, que o processo se retomou, com as alterações indispensáveis a uma situação de dissertação de mestrado, tendo em conta, de uma forma realista, os meios materiais, humanos e tecnológicos, o tempo de que era efectivamente possível dispor e ainda as dificuldades e os ajustes inevitáveis, num processo em que nem tudo pode ser previsto.

Afigurou-se, no entanto, aliciante como desafio, uma vez que poderia ser uma forma inovadora de rentabilizar esforços e, consequentemente, dar um contributo bastante positivo para a aprendizagem do Português como língua estrangeira.

De qualquer modo, este trabalho teria sempre que ser entendido como uma situação de ensaio, servindo a investigação a fazer, os dados a recolher e o seu tratamento como base a desenvolvimentos posteriores.

Partindo para uma situação de concretização:

concluiu-se serem a França e a Alemanha, países com um elevado índice de imigração, e concretamente Paris VIII e Saarbrücken, as universidades que reuniam as melhores condições para o desenvolvimento do projecto.

Para além das formalidades institucionais, foram feitos vários contactos pessoais com os professores/leitores de ambos os Departamentos e acordadas formas concretas de funcionamento dos grupos de que adiante falaremos.

Em termos de problematização, duas questões funcionaram como ponto de partida:

Daí decorre o que nos propusemos fazer:

Ensaiar um sistema de intercomunicação, usando fundamentalmente meios telemáticos, com dois grupos de alunos de Português Língua Estrangeira, em França (Paris VIII) e na Alemanha (Saarbrücken) que permitisse criar uma dinâmica facilitadora do processo de aprendizagem neste contexto.

Desenvolvimento do projecto

Pressupostos

Embora já tenham sido citados alguns aspectos indispensáveis ao desenvolvimento deste projecto, considerou-se fundamental, relativamente aos grupos de trabalho:

No que diz respeito a meios/materiais:

Dada a natureza do trabalho a desenvolver, foi determinante a existência, compatibilidade e disponibilização dos meios tecnológicos previstos: fax, computadores (postos para utilização individual, com e-mail e ligação à Internet, ...), leitores audio e vídeo, para além de meios considerados tradicionais (correio normal e telefone).

As situações de interactividade efectiva, que foram criadas com os grupos, tiveram em conta estes pressupostos.

Caracterização dos grupos

O trabalho foi desenvolvido por jovens adultos, aprendentes de Português, Língua Estrangeira, nível intermédio/avançado.

Cada grupo (o de Paris VIII França e o de Saarbrücken) era constituído, à partida, por quatro elementos, tendo vindo a alargar-se esse número a oito alunos (no caso de Saarbrücken), procurando-se, no entanto, o equilíbrio possível, de modo a introduzir um mínimo de variáveis (idade, sexo, ascendência - serem ou não lusodescendentes, terem ou não conhecimento da realidade portuguesa, motivações, interesses, necessidades...).

Houve, ainda, que assegurar um conhecimento mínimo de utilização dos meios tecnológicos, de modo a poderem usá-los, sem problemas, nas situações que iriam ser propostas.

Realização

Foi definido, de forma tão concreta quanto possível, com os professores/leitores que acompanharam os grupos e com os próprios alunos o que se ia fazer, quando e como.

Numa primeira fase, e antes de mais, definiram-se estratégias e desenvolveram-se actividades que possibilitaram:

Essa testagem foi feita com base em actividades realizadas a partir de materiais disponibilizados pela Universidade Aberta, deliberadamente não acompanhados de propostas concretas de trabalho, sobre os quais alunos e professores/leitores se pronunciaram livremente, usando, para divulgação da produção escrita individual, uma mailing list criada desde logo.

Foi intencional iniciar o trabalho de uma forma livre, sem propostas condicionantes. Pretendia-se, esperava-se que daí surgissem ideias conducentes à escolha de um tema que fosse do interesse dos grupos, numa perspectiva prioritariamente sociocultural e sobre o qual fosse possível obter materiais (scripto, audio, video ou informo). Esse tema teria, apenas, obrigatoriamente que ver com a realidade portuguesa e seria a linha de orientação do trabalho na segunda fase. Atendendo ao momento que se vivia em Portugal com a realização da Expo 98, a última exposição mundial do milénio, subordinada ao tema "Os Oceanos", optou-se por "Mares e Oceanos em Português".

Materiais

De um primeiro levantamento de materiais que poderiam servir esta área temática, foram seleccionados alguns títulos sobre situações do quotidiano em Portugal, ligadas ao mar, em suporte vídeo.

Neste caso, não foram utilizados meios telemáticos para o envio das cassettes video, mas o correio normal, dado que a primeira opção iria exigir segmentação do conteúdo e daí não adviria qualquer vantagem. O feedback dos alunos, esse sim, foi obtido por correio electrónico, a partir de cada um dos centros.

A propósito desta situação é importante referir um aspecto que, estando implícito, ainda não foi destacado: a necessidade de adequação dos meios a utilizar em cada caso e a respectiva rentabilidade. Porque aqui têm sido citados frequentemente meios telemáticos, significando as mais recentes formas de utilização, isso não significa que, em algumas situações, não se considerou preferível ou não foi apenas possível usar o correio normal, o fax ou o telefone.

De qualquer modo, trabalhou-se, em princípio, em ambas as fases, ao nível da escrita: a compreensão, a expressão, as linguagens verbal e icónica.

Não foi possível desenvolver actividades ligadas à oralidade, dada a dificuldade de disponibilizar os meios adequados.

Estratégias e Actividades

Propôs-se aos grupos, como já foi dito antes, trabalho sobre o tema «Mares e Oceanos em Português», a partir de materiais variados, seleccionados e em diferentes linguagens.

Esses materiais eram ou não acompanhados de propostas de trabalho, consoante os objectivos definidos e foram enviados por correio normal, por correio electrónico ou por fax, consoante a sua natureza e a urgência de recepção.

Outra forma de acesso a documentos base para a realização das propostas de trabalho, foi a partir do site

http://www.univ-ab.pt/~mjserra/oceanos/home.html

criado exclusivamente para esta situação e com acesso condicionado. Essas páginas permitiram também a ligação a outros sites para consulta, nomeadamente da EXPO98, jornais, radios e outros, considerados de interesse, bem como a divulgação de alguns trabalhos realizados pelos alunos, nomeadamente as suas páginas pessoais.

As situações de discussão, de troca, de interligação foram basicamente feitas usando e-mail, mailing list e, ainda IRC, definidas para cada caso).

As ligações foram feitas por RDIS (64 Kb).

Todo o material linguístico e os dados culturais, resultantes da realização das actividades e das situações formais ou informais de comunicação, foram trabalhados e analisados nas vertentes possíveis.

Contexto de aprendizagem

O trabalho com os alunos foi realizado fora do espaço aula, com e sem a presença dos professores/leitores responsáveis pelos grupos.

No que respeita a Paris VIII, foram disponibilizados recursos, no âmbito de um projecto designado «L'Informatique Pour Tous». Em Saarbrücken, embora em termos institucionais tivessem sido disponibilizados postos para utilização dos alunos, fora do Departamento de Português, verificaram-se muitas dificuldades de ordem técnica que inviabilizaram, em alguns casos, o estabelecimento de ligações e consequentemente o envio e recepção de mensagens. Em alternativa, alguns dos alunos utilizaram os seus computadores pessoais, fora da Universidade.

Conclusão

Em conclusão, pode dizer-se que se cumpriram os objectivos definidos à partida. Foi possível criar uma dinâmica que ultrapassou largamente as expectativas, quer no que respeita à aquisição e alargamento de conhecimentos da Língua e da Cultura portuguesas, quer em termos relacionais e de troca. Contrariamente ao que vulgarmente se pensa, as ligações pessoais entre "desconhecidos" não se limitaram ao cumprimento das tarefas propostas, tomaram forma e consistência e perduraram para além do tempo da sua realização.

O estudo aqui descrito deu, como se previa, o seu contributo a um projecto que está a ser implementado pela Universidade Aberta - VIAGENS VIRTUAIS - cujo objectivo é dar a possibilidade a um público vasto de aprender Português, Língua e Cultura, pela Internet, utilizando, em simultâneo, diferentes suportes (CD-ROM, videocassettes, audiocassettes e livros), apoiando-se em dois tipos de tutorado: pedagógico e técnico. Está, desde já, previsto o alargamento a outras áreas do Saber.

Na linha do que será o futuro e que já é, afinal, o presente, a escola, a universidade e a empresa têm, nestes "novos" caminhos, uma forma segura de resposta às necessidades postas em termos de Saber, Saber Ser e Saber Fazer, quer em contexto escolar ou académico, quer numa formação que se deseja ao longo da vida.

 

Algumas Referências Bibliográficas

BEAUD, Michel, L'Art de la Thèse, Editions de la Découverte, Paris, 1986

FRIZLER, Karla, The Internet as an Educacional Tool in Esol Writing Instruction, San Francisco, California, Dez. 1995

NEGROPONTE, Nicholas, Ser Digital, Ed. Caminho da Ciência, Lisboa, 1996

NIELSEN, Jakob, Usability Engineering, AP Professional, New Jersey, s.d.

SINGHAL, Meena, The Internet and Foreign Language Education: Benefits and Challenges, meena@azstarnet.com, The University Arrizona, USA, 1997

STRECHT RIBEIRO, José Orlando R., O Aluno Vencido que Desabrochou ou do Dialogue Journal ao Correio Electrónico..., ESE, Lisboa, 1997